O termo “experiência do usuário” tem me intrigado muito ultimamente. Não somente pelo conceito, mas pelas implicações lógicas que ele tem. Quando ouvi, pela primeira vez, falarem sobre o cargo “analista da experiência do usuário”, depois de alguns anos estudando psicologia (na facu e fora dela), me veio à cabeça um usuário deitado no divã, fazendo livre associações a respeito dos seus traumas com determinada interface.
O uso do termo, de início, me pareceu injustificado e até mesmo, inocente. Certa vez, na Arqhp, o Irapuan Martinez, levantou uma hipótese de que o mercado de web designers ganha mais vendendo coisas para si mesmo do que realmente produzindo algo. Não trabalho na área há tanto tempo assim, mas confesso que nesse pouco tempo, vi muuuuuuuuito hype criado por esse mercado. Cursos de Tableless, ajax, palestras sobre web 2.0, rich internet applications, gurus de engenharia de usabilidade, qualquer moleque falando mal de qualquer site e por aí vai… Os rótulos dos cargos usados nas agências, mereceria uma análise à parte. Deste ponto de vista, a hipótese levantada pelo Irapuan, me pareceu ser bem plausível. E o user experience design, pode ser somente mais papo furado, empurrado goela abaixo pelos gurus do mercado web.
O que é a experiência do usuário?
De modo geral, os pontos de vista predominantes sobre o que consiste a experiência do usuário são:
- O conjunto de tudo aquilo que não sabemos como denominar, mas mesmo assim, tentamos afetar (um termo vago que engloba outros termos vagos, como arquitetura da informação, design de interação etc.). Creio que uma análise do termo nesse sentido não seria muito frutívera, concordam?
- A experiência como sinônimo de consciência, e neste sentido, bem similar ao conceito usado pela fenomenologia. Os objeto estudados e projetados então seriam os fenômenos que aparecem ao fluxo da consciência intencional.
- O sentido que a AIGA dá ao experience design: o relacionamento como um todo (sequências de interações ao longo do tempo) entre o usuário e o produto e/ou serviço e a empresa fornecedora dos mesmos.
É possível projetar uma experiência? - parte 1: contra
Em termos teóricos? Sim. Uma matrix, um show de Truman, um admirável mundo novo, um 1984, entre outros, seriam exemplos de projetos de experiências. Os projetistas planejaram o que o “usuário” terá como experiência (tanto no sentido da consciência intencional, como no sentido de relacionamento entre o indivíduo e o meio). A questão aqui, ainda teórica, é até que ponto isso é desejado e as implicações éticas de um projeto como esse.
Em termos práticos? Graças a deus não. Qualquer exemplo de projeto de experiência (tanto como consciência intencional, como enquanto sequências de interações usuário-meio ao longo do tempo) exige uma manipulação de todas as variáveis do ambiente. Sendo que existem variáveis que afetam a experiência, as quais não temos acessos (tanto por serem “internas”, como os comportamentos internos, cognições e emoções, quanto por serem de outro tempo, como a história passada). Em todos os exemplos de projetos de experiências citados acima, mais hora, menos hora, o “usuário” experiencia ou faz algo não projetado pelo projetista. Alguma brecha é encontrada e o projeto da experiência falha.
O que resta ao user experience designer?
Até onde eu sei, muitas das drogas nasceram de forma acidental, como o LSD. Mas imaginemos, por um momento, que elas fossem projetadas. Sabemos que o consumo de drogas altera a experiência do usuário. Mas podemos falar que o químico-projetista (sei que esse cargo deve ter outra denominação, mas como não a conheço, vou chamá-la assim mesmo) que tivesse projetado alguma droga, como o ecstasy ou o LSD, projetou uma experiência? Não seria esse o sentido mais próximo que o user experience design teria? O user experience designer e o químico-projetista não têm em comum o usuário-final?
Drogas, por meios químicos, produzem um estado alterado da consciência. Mudamos o estado da consciência, mas não podemos controlar a experiência que o usuário terá, enquanto estiver drogado (podemos falar que existe uma grande probabilidade dele ter uma alucinação, mas a alucinação em si, o conteúdo dessa alucinação, está fora do nosso controle). Ou seja, manipulamos algumas das variáveis que controlam sua experiência, mas não todas estas variáveis, logo, não controlamos ou projetamos a experiência como um todo. Podemos facilitar uma experiência, mas não controlar.
Se projetamos um carro, dificilmente poderíamos falar que estamos facilitando a existência de um carro. Se no final das contas, o resultado final não for um carro, mas uma mula, dificilmente poderíamos falar que projetamos um carro, certo? (ou ao menos, que o projetado não seguiu o projeto) O projeto então, pressupõe o controle sobre o resultado final, o projetado. Projetar, inclui um esforço temporário empreendido para criar um produto, serviço ou resultado exclusivo
. Se projetamos x, mas obtemos y, não poderíamos dizer que o projeto (no sentido de plano) foi um sucesso, certo? Porque falaríamos então, de projetar experiências, se não temos controle sobre o projetado?
Os consumidores de drogas podem ficar mais propensos a sentir x ou fazer y, mas não há como garantir que o usuário não vá se matar numa bad trip. Parte das variáveis que controlam o comportamento do usuário foi manipulada, mas outra parte, nunca poderá ser acessada pelo químico-projetista. No maior caso de controle, o médico aplica uma anestesia e o paciente desmaia. Mas mesmo assim, o que o paciente vai sentir depois ou mesmo sonhar, está fora do alcance do médico.
Poderíamos falar de um projeto de experiência do usuário? Talvez, de partes que afetam as experiências (se bem que a expressão “design de partes que afetam a experiência do usuário” não teria tanto apelo comercial). Só não sei se o projeto de um site seria o contexto mais adequado para tal. Gestão de eventos não seria um contexto muito mais provável de afetar a experiência do usuário?
A seguir: a experiência como mercadoria (ou “É possível projetar uma experiência? - parte 2: a favor”)